quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Texto de Nina Lavezzo.

Tenho conversado muito sobre feminismo e uma das coisas que mais me chocou foi ouvir de dois amigos próximos que eles não eram feministas. Uma delas me disse que não era feminista porque gostava de dominação, gostava de se sentir "protegida" pelo homem e submissa sexualmente na relação. O outro afirmou não ser feminista por achar que feminismo não era bem um assunto para homens e se sentir diminuído em discussões com feministas que afirmavam que os homens são "porcos" ou "estupradores em potencial". Esses meus dois amigos me inspiraram a fazer esse post, pois o único erro deles foi ter uma ideia falsa do que é o feminismo. Assim como eles, muitas pessoas não entendem o movimento feminista - seus objetivos, sua luta histórica, suas discussões e divergências - e, por isso, se colocam de pronto contra o mesmo. Afinal, o que é feminismo? E para quem é o feminismo?



Segundo Catherine Villanueva Gardner, "essencialmente, o movimento feminista tem como objetivo a eliminação da opressão social, política, econômica e cultural da mulher". As primeiras e segunda onda do movimento feminista mainstream buscavam os interesses de um ideal específico de mulher: a mulher branca, heterossexual e de classe média. A partir da segunda onda, mas principalmente na terceira, começam a questionar e repreender essa atitude, fazendo insurgir alguns grupos marginalizados que se unem ao movimento, destacando-se os movimentos negro e lésbico (uma brevíssima história das 3 ondas feministas está no final do texto. Se quiser dar uma olhada, agora é a hora!). Tudo isso me faz pensar em quem é a mulher pela qual lutamos no feminismo, isso é, estamos excluindo mulheres dessa luta? Estamos fazendo como na segunda onda: conseguir a nossa liberdade através da opressão alheia?

Ao criar uma imagem unitária de mulher feminista, excluímos milhares de possibilidades de mulheres que também são oprimidas. E aí está a minha amiga, de mais cedo, que gostava de ser submissa e protegida em uma relação: só porque ela deseja em sua vida romântica certa dependência ela necessariamente é excluída da luta feminista? Ela não deixa de querer ser tratada com igualdade em outras esferas da sua vida social e nem deixa de querer direitos igualitários, mas porque ela só teve contato com uma imagem do feminismo (que definia que ela não podia querer o que ela quer), ela se dizia machista. Portanto, a resposta é não, ela não deixa de ser feminista. Ninguém é menos feminista porque gosta de bondage ou S&M, ninguém é menos feminista porque usa batom e saia, porque depila a axila e usa maquiagem. Lutamos pelo direito de uma mulher querer o que for, de ter total domínio e autonomia sobre seu corpo. Minha amiga não entendia, talvez, que qualquer mulher pode ser feminista desde que queira direitos iguais e direito de querer o que quiser.

A garota segura o cartaz: "poder aos gays. poder aos negros, poder às mulheres, poder aos estudantes, todo o poder às pessoas".

Bom, eis uma questão que o movimento feminista atual tenta combater com veemência - e fico muito feliz que o faça-: qual é a imagem de mulher padrão que defendemos? Cada vez mais, entendemos: nenhuma. Não há um padrão de mulher que deve ser assimilado para que a luta feminista continue. Assim como uma mulher com vagina, ovário e útero é mulher, as mulheres trans são mulheres (http://blogueirasfeministas.com/2014/05/transfeminismo-e-a-ideia-radical-de-que-mulheres-trans-sao-mulheres/). Assim como uma mulher "saudável" é mulher, uma mulher deficiente é mulher. Assim como uma mulher homossexual é mulher, uma bissexual ou heterossexual é mulher. Assim como uma mulher caucasiana é mulher, uma negra, parda, indígena ou de qualquer outra "raça" é mulher. Assim como uma prostituta é mulher, uma freira é mulher. Assim como uma mulher de classe média é mulher, uma mulher pobre é mulher. Sem dúvidas isso é algo que torna o movimento muito amplo, mas por que não haveria de ser? O feminismo é a luta por direitos iguais e não vejo por que motivo alguém gostaria de ter seus direitos cerceados.

O feminismo é, sim, antes de mais nada, uma luta por empoderamento. O empoderamento da mulher, o nosso direito de autonomia, tanto no âmbito social quanto em relação ao nosso próprio corpo. É também uma luta por igualdade de direitos e de gêneros - não no sentido biológico (sim, o feminismo admite muito bem que homens e mulheres são biologicamente diferentes e estamos muito felizes com isso, amamos nossas bocetas!), mas sim na busca por tratamento igualitário perante a sociedade civil. O feminismo surge por um motivo simples: todos queremos ser livres e respeitados. Durante séculos as mulheres foram tidas como inferiores, incapazes e até demoníacas. Eram proibidas de frequentar escolas, de trabalhar, de votar, de obter cargos públicos, de se separar, de ter a guarda dos filhos, de negar sexo ao marido, e de muitas coisas mais as quais eram totalmente permitidas aos homens. Se você acha a palavra "exploração" pesada demais para descrever o que as mulheres passaram no passado, devemos concordar no mínimo em "injustiça". Bom, mas e hoje? Hoje, a mulher ainda é proibida ou constrangida socialmente a não adotar várias práticas comuns ao homem: andar sem camisa, se masturbar, assistir pornografia,  ser policial, usar de operações para não ter filhos, "pegar" muitos rapazes em uma noite, praticar sexo ocasional, se envolver em relações de poligamia, entre outros. Assim, podemos concluir que ainda existe a tal injustiça, opressão, ausência de direitos iguais e de total autonomia feminina e, portanto, ainda há motivos para a luta, correto? Bom, nem todos concordam, e aí continua nossa discussão.

À direita, um homem sem camisa com o escrito "a sociedade diz que tudo bem". À esquerda, uma mulher também sem camisa com o escrito "a sociedade diz que não é 'tudo bem'". 

O pós-feminismo é um movimento que surge nos anos 1980 em contraposição à segunda onda e afirma, por alto, que as mulheres já haveriam conquistado todos os direitos que lhes conferiria igualdade de gêneros. Assim, entendem que o feminismo não mais seria necessário na sociedade, pois (como propõe o prefixo "pós") já teriam alcançado as metas de igualdade visadas e poderiam, agora, dedicar-se a outras causas. Alguns filmes demonstram essa visão, como Sex and the City, onde as mulheres supostamente são independentes financeiramente e livres sexualmente, mas, ao mesmo tempo, estão sempre na busca por um homem perfeito, o qual tornaria suas vidas finalmente completas. Claramente, eu não compartilho dessa visão, não acho que o feminismo está num estágio posterior porque conquistamos o que conquistamos (tampouco acho que viver sua vida em busca de um homem que lhe faça feliz te torne menos feminista, por sinal). Contudo, essa é uma corrente variante do feminismo (ainda que divergente do mainstream) e muitas outras correntes surgiram desde então, com outros propósitos e motivações.

Uma dessas correntes é a que busca abarcar todas as concepções de mulher possíveis e abraçá-las na luta feminista, como já citei antes (à qual eu, também claramente, sou adepta). Da mesma forma que há padrões de mulher em alguns períodos históricos e mesmo em algumas correntes, há padrões divergentes sobre quem pode participar do feminismo. Um movimento que ganhou força nos últimos tempos delimita que o empoderamento feminino deve ser uma luta das mulheres pelas mulheres, isso é, somente mulheres em busca do poder às mulheres. Simultaneamente, há correntes que envolvem a participação tanto de homens quanto de mulheres no feminismo, por compreender ou que o homem também é vítima do machismo (desde com frases típicas como "homem não chora" até limitações de vestimenta) ou que ele é capaz de perceber e querer acabar com a opressão sofrida pelas mulheres.

Com a popularidade (felizmente) atual do feminismo, tanto a ala mais radical do movimento quanto os comentários de ódio misóginos ganharam força nas redes sociais. Com a firme impressão de que para ler um blog feminista o meu querido leitor já tem conhecimento dos tipos de comentários machistas aos quais me refiro ("lugar de mulher é no tanque", "você só tá precisando é de um pinto bem grande pra calar sua boca", "é só mal comida", "mas ela tava vestida como uma puta, tava pedindo", etc e etc), gostaria de focar no movimento radical que guiou meu amigo, aquele lá do começo, em sua posição. O movimento radical feminista é bastante atual, tem menos registro teórico formal do que o mainstream e conta bastante com as redes sociais (como qualquer movimento social atual). Com o apelido popular - e pejorativo, na minha opinião - de "feminazi" (http://en.wikipedia.org/wiki/Feminazi  ou http://www.feministacansada.com/post/34506943190), essa corrente costuma não dar lugar à participação de homens em seu espaço de discussão e protesto. Simultaneamente, é a ala que costuma protagonizar movimentos que transgridem a estética e a moral tradicionalistas, como dizer não à depilação e sim ao aborto. Assim como há comentários constantes de ódio a mulheres e apelidos pejorativos ao movimento feminista, como "feminazi", há a contrapartida que costuma vir dessa corrente mais radical. O feminismo mais extremo, mais radical, é capaz de compartilhar mensagens de misandria, como o Femen. 

Imagem do site oficial do femen com uma mulher com os seios a mostra, uma foice em uma mão e testículos decepados na outra, atrás está escrito o que poderia ser traduzido como "sextremismo". A imagem faz parte de uma série de protestos contra um estupro grupal a uma garota de 16 anos na França em que os 10 suspeitos foram soltos após o julgamento.

Aí surge meu amigo falando que as feministas acham que os homens são "estupradores em potencial", sem levar em conta tudo o que falam a todas as mulheres todos os dias. Então, ao meu amigo e a todos que acreditam que o homem não tem lugar no feminismo: bom, em algumas alas de fato não tem (so what?); mas em outras (inclusive na mais popular) o homem pode participar e muitos participam sim, sem interferir no protagonismo das mulheres no movimento. Um exemplo disso está na Marcha das Vadias, uma marcha organizada pelo movimento feminista da qual participam homens e mulheres em busca de direitos iguais e empoderamento feminino. De fato, se fazer de oprimido por não ser protagonista em um movimento, de modo que o homem foi/é protagonista em quase todos os movimentos na história, é uma atitude machista, mas não foi o que meu amigo pretendeu: ele simplesmente tinha uma visão parcial do feminismo, não teve contato com o movimento num todo (assim como minha amiga, citada antes). E isso é algo que me preocupa - é o motivo pelo qual escrevo -, parece que as pessoas tem uma visão superficial do feminismo e param de demonstrar interesse pois não se sentem parte, se sentem excluídas. Eu, e muitas e muitos outros feministas, dizem não a isso. Feminismo pra quem? PARA TODOS, e é isso que quis mostrar nesse texto. Não são todas as alas do feminismo que aceitam a todos, não, não são, mas são poucos os movimentos sem extremismos. Em essência o feminismo é uma busca por direitos iguais, por liberdade quanto ao corpo e ao desejo (no sentido amplo), e se você acredita que devemos ter isso, você é pró-feminista. E, de ser pró-feminista para ser feminista, saiba: basta querer. Então, ao meu amigo, você não é "um porco estuprador" porque é homem, você não é pró-machismo porque é homem, você pode ser feminista se quiser. Inclusive, o feminismo é para todos.



Marcha das Vadias: campanha mundial do movimento feminista em busca pela igualdade de direitos e de tratamento. Seu nome é derivado de um ocorrido no Canadá, onde um homem, após ser acusado por estupro, para se justificar afirmou que ela "estava vestida como uma vadia". Desde então a marcha percorre o mundo indo contra a cultura do estupro e reivindicando pautas importantes da agenda feminista. Nem todas as correntes feministas concordam com essa manifestação. Na imagem, há mulheres e homens com poucas roupas.



Bibliografia:

Blogueiras Feministas. Dia das Mulheres? De quais Mulheres?. Thays Athayde. Link: http://blogueirasfeministas.com/2014/03/dia-das-mulheres-de-quais-mulheres/. Publicado em 07/03/2014.
Blogueiras Feministas. Desgeneralizar o feminismo!. Thays Athayde. Link: http://blogueirasfeministas.com/2014/09/desgenitalizar-o-feminismo/. Publicado em 01/09/2014.
Blogueiras Feministas. Transfeminismo é a ideia radical de que mulheres trans são mulheres. Hailey Kaas. Link: http://blogueirasfeministas.com/2014/05/transfeminismo-e-a-ideia-radical-de-que-mulheres-trans-sao-mulheres/. Publicado em 05/05/2014
GARDNER, Catherine Villanueva. Historical Dictionary of Feminism Philosophy. The Scarecrow Press, Inc. Lanham, Maryland. Toronto. Oxford, 2006.
SCOTT, Joan Wallach. Género e historia. México; FCE. Universidad Autónoma de la Ciudad de México, 2008.
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Breve (ultra breve) explicação das 3 ondas feministas:

 A chamada primeira onda do feminismo aconteceu de meados de 1800 a 1920, nos Estados Unidos e no Reino Unido, e envolveu o enfrentamento de desigualdades nas esferas social e legislativa (VILLANUEVA). Foi extremamente importante por expor, como nunca antes, a opressão vivida pelas mulheres, em especial a ausência de educação formal, a pré-definição de um papel social de filha/esposa/mãe dona de casa e os problemas da dependência econômica. Sem dúvidas foi importante, mas, como era de se esperar, abrangia somente os interesses das mulheres de classe média.
A segunda onda ocorreu nos anos 1960 e 1970, na Europa e nos Estados Unidos, e procurou mostrar que os direitos civis e legais conquistados na primeira onda não eram suficientes para eliminar a opressão sofrida pelas mulheres (VILLANUEVA). Foi uma luta política mais intensa com a busca por consciência do que é ser mulher e de todas as opressões que sofriam simplesmente por sê-la - "the personal is political". As experiências das mulheres eram focos de análise e inspiravam teorias, agendas e objetivos políticos liderados pelas próprias mulheres. Foi nesse momento que surgiram variações no movimento: o feminismo liberalista, o feminismo marxista, o feminismo radical, o feminismo lésbico, o feminismo negro, o feminismo pós-colonial, entre outros.
A partir dos anos 1980, a terceira onda do feminismo começa, mais pluralista e questionando a proeminência dos interesses de mulheres brancas, heterossexuais e de classe média no movimento em detrimento à participação de grupos marginalizados (VILLANUEVA). Assim, é uma onda que parece menos unitária e mais ampla.

Um comentário:

  1. Muito bom o seu texto! Aborda todas as vertentes, sem desmerecê-las e deixa claro qual o papel que um homem pode fazer no movimento feminista! Parabéns! :)

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